A trajetória de futebolistas como Eusébio, nascidos nos subúrbios da então capital moçambicana e que vieram a alcançar estatuto de estrelas na metrópole, serve de ponto de partida para uma exposição que evidencia como a sua ascensão representou uma exceção dentro do sistema colonial.
“Fintar a Vida. Caniço, Futebol e o Estado Novo” é o título da mostra que o Museu Nacional de Etnologia abre ao público esta sexta-feira, em Lisboa. A exposição propõe uma viagem aos subúrbios de Lourenço Marques, entre as décadas de 1950 e 1970, convidando à reflexão sobre cultura, desporto e os legados do colonialismo.
O investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e curador da exposição, Nuno Domingos, explicou à Lusa que a mostra centra-se na vida de jogadores como Matateu, Mário Coluna, Hilário Rosário da Conceição e Vicente Lucas, procurando regressar às suas origens sociais e ao contexto urbano onde cresceram, numa Lourenço Marques profundamente dividida entre o centro colonial e os subúrbios.
Segundo o curador, essa divisão refletia as bases do sistema colonial português e as suas lógicas de segregação, com uma componente marcadamente racial. Nesse contexto, ganha destaque o Caniço, espaço suburbano onde vivia grande parte da população africana e onde muitos destes jogadores passaram a sua infância.
A exposição procura, assim, recuperar as origens frequentemente esquecidas destes futebolistas, que tendem a ser lembrados sobretudo a partir das suas carreiras em Portugal, quando chegaram a clubes como o Benfica, o Sporting ou o Belenenses.
O projeto também revisita o período da guerra colonial, iniciada em Moçambique em 1964, e analisa como o Estado Novo tentou utilizar as trajetórias destes jogadores para fins propagandísticos, num momento de crescente pressão internacional sobre o império.
As vitórias do Benfica na Taça dos Campeões Europeus em 1961 e 1962, a conquista do Sporting e a participação no Mundial de 1966 tornaram estes atletas altamente visíveis, permitindo ao regime explorar uma narrativa de “lusotropicalismo” e harmonia racial que não correspondia à realidade vivida no terreno.
A exposição reúne fotografia, objetos da cultura popular da metade do século XX, publicações de imprensa e peças ligadas ao futebol, estabelecendo um diálogo com as coleções do Museu Nacional de Etnologia para evidenciar os contrastes sociais e culturais da antiga Lourenço Marques.
Além de Nuno Domingos, a curadoria é partilhada com Gonçalo Amaro, diretor do Museu Nacional de Etnologia, responsável pela conceção da mostra inaugurada hoje em Lisboa.